Médica do interior de SP é vítima de assédio sexual durante jogo da Série A4 do Campeonato Paulista: 'Doutora gostosa, vem me examinar'
09/03/2026
(Foto: Reprodução) Médica que sofreu assédio em jogo do Comercial espera punição
A médica Bianca Francelino, que foi assediada sexualmente por torcedores dentro do Estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto (SP), disse nesta segunda-feira (9) que se sente constrangida e triste.
O episódio aconteceu no sábado (7), véspera do Dia da Mulher, durante a partida entre Comercial e Nacional-SP, válida pela nona rodada da Série A4 do Campeonato Paulista. Bianca estava a trabalho e prestava assistência ao time visitante.
À EPTV, afiliada da TV Globo, a médica revelou que durante toda a partida ouviu palavras ofensivas e de cunho sexual de torcedores que estavam no alambrado. Segundo ela, eles ainda disseram que se ela não estava gostando, não era para estar em campo.
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"Gritavam 'doutora gostosa' o tempo inteiro. 'Doutora gostosa, vem aqui me examinar', 'doutora gostosa, estou com uma dor aqui', apontando para parte íntima. Pedir WhatsApp, Instagram. Foram esses tipos de brincadeira o tempo inteiro. E também que se eu não quisesse ouvir 'zoeirinhas', não era para eu estar naquele lugar, que era para eu ficar em casa para próxima vez".
Em nota, o Comercial repudiou o assédio e disse que um dos torcedores já foi identificado. A Federação Paulista de Futebol informou que o caso foi enviado às autoridades e os responsáveis serão punidos de forma rigorosa.
Bianca Francelino, médica que foi assediada sexualmente por torcedores em estádio em Ribeirão Preto, SP
Aurélio Sal/EPTV
Bianca também afirmou que não queria falar do assunto para tentar esquecer o que aconteceu, mas se viu no dever de não se calar.
"Acho que nós, como mulheres, não devemos deixar esse tipo de situação calar a gente. Ninguém deve decidir onde uma mulher deve ou não atuar, isso cabe somente a ela. Espero que o indivíduo seja punido e que, cada vez menos, isso seja suscetível de acontecer. Isso só mostra como a gente está exposta e vulnerável em qualquer ambiente. Por mais que a gente lute, ainda tem essa vulnerabilidade. Ninguém merece, ninguém tem que passar por esse tipo de situação. É constrangedor e é triste".
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O namorado de Bianca, o educador físico Paulo Galvão, e o pai dele, sogro da médica, estavam na arquibancada acompanhando o jogo e viram o momento que os torcedores importunaram a mulher.
À EPTV, Paulo revelou que foi tirar satisfação e ainda foi ameaçado por um dos torcedores.
"Vi que ele já estava passando do ponto. No momento que eu vou descer, ele está dando cusparada no campo e aí eu chego e ele já estava falando bastante groselha. Aí eu cutuco ele pra falar e ele já 'que é você que você quer?', 'vou te pegar'. Eu falei 'cara, é minha mulher, estou pedindo respeito'. E aí a todo momento ele fala 'volta para São Paulo, você é do Nacional'. E eu falei 'eu sou de Ribeirão, eu sou comercialino, mas é minha mulher, estou te pedindo respeito'.
De acordo com a FPF, a árbitra acionou o protocolo previsto no tratado pela diversidade e contra a intolerância no futebol paulista e a médica recebeu apoio.
A súmula da partida diz que a árbitra Ana Caroline D'Eleutério foi comunicada pelo quarto árbitro sobre o relato feito pelo técnico do Nacional-SP, Tuca Guimarães.
🔎Súmula é um documento oficial elaborado pela equipe de arbitragem relatando, em detalhes, tudo que acontece antes, durante e depois da partida.
Segundo o técnico, um torcedor teria segurado e apontado a genitália em direção à médica da equipe do Nacional, que se encontrava na área do banco de reservas. Ainda segundo o relato, a situação gerou início de discussão entre os jogadores reservas e membros da comissão técnica do Nacional com torcedores do Comercial, que estavam próximos ao alambrado.
Torcedores e clube podem ser punidos
Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, o advogado Vitor Silva Muniz diz que o Comercial pode ser responsabilizado pelas atitudes dos torcedores e receber uma multa de até R$ 100 mil.
Os torcedores envolvidos ainda poderão ser proibidos de entrar no estádio por quase dois anos.
"O ato, conforme foi narrado, pode ser enquadrado no artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva e esse artigo prevê punições para o clube e para o torcedor identificado. O clube desse torcedor pode ser responsabilizado a pagar uma multa de R$ 100 a R$ 100 mil e o torcedor, sendo identificado, deve ser proibido de ingressar no estádio, nas dependências, por, no mínimo, 720 dias".
Ainda segundo o advogado, o clube precisa ter uma relação de torcedores cuja entrada é vedada no estádio para facilitar a proibição de quem foi punido.
"O clube é responsável por essa fiscalização e por proibir naturalmente a entrada. Uma vez que isso não seja respeitado e venha a ser noticiado, ele pode sim ser responsabilizado e punido por permitir esse ingresso".
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